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História

Rua do Arvoredo: o endereço de um dos capítulos mais macabros da história de Porto Alegre

Assassinatos, mistérios e uma história macabra escondida no coração de Porto Alegre, onde fatos históricos e narrativas assustadoras se cruzam.

06 de nov. de 2026 · Porto Alegre

Rua do Arvoredo: o endereço de um dos capítulos mais macabros da história de Porto Alegre

Existe uma rua no Centro Histórico de Porto Alegre que guarda uma história difícil de esquecer. Hoje, quem passa pela Rua Coronel Fernando Machado encontra construções antigas, casas, estabelecimentos e o movimento cotidiano de uma cidade que segue seu ritmo. Mas nem sempre aquele trecho foi apenas mais uma rua da capital.

No século XIX, quando Porto Alegre era muito menor e seus moradores ainda se conheciam com mais facilidade, aquele endereço era conhecido como Rua do Arvoredo. Foi ali, em uma casa que ficava nos fundos da região onde hoje está o Palácio Piratini, que uma sequência de assassinatos chocou a população e deu origem a uma das histórias mais perturbadoras do imaginário gaúcho.

E o mais assustador é que, por trás das histórias que atravessaram gerações, existem crimes reais, vítimas identificadas, investigações policiais e processos judiciais.

A história começa muito antes de a cidade imaginar o que estava acontecendo naquela casa.

O homem que escondia seus segredos no quintal

José Ramos era um homem de aproximadamente 26 anos, natural de Santa Catarina. Sua vida profissional era pouco definida. Já havia passado pelo serviço militar, trabalhado em diferentes atividades e, segundo os registros da época, também atuado como cortador de carne.

Ele vivia com Catharina Palse, uma mulher húngara de 27 anos, com quem dividia a residência na Rua do Arvoredo. Os dois não eram oficialmente casados, mas mantinham uma relação e compartilhavam a casa havia aproximadamente sete ou oito meses.

A residência, aparentemente comum, escondia algo que ninguém ao redor imaginava.

Em setembro de 1863, um comerciante alemão chamado Carlos Claussner, de aproximadamente 35 anos, desapareceu.

Ele era proprietário de um açougue localizado na antiga Rua da Ponte, hoje Rua Riachuelo, nas proximidades da Igreja das Dores.

José Ramos conhecia Claussner e havia trabalhado em seu estabelecimento por um curto período.

O que aconteceu entre os dois acabou se tornando o primeiro episódio comprovado da sequência de crimes.

Claussner foi assassinado, e seus restos mortais acabaram escondidos no porão da casa de Ramos. O corpo permaneceu ali por meses, entrando em avançado estado de decomposição, enquanto a vida na cidade continuava normalmente.

O desaparecimento do comerciante não provocou, naquele primeiro momento, uma investigação capaz de revelar o que realmente havia acontecido.

José Ramos, entretanto, não havia terminado.

Abril de 1864: dois desaparecimentos e uma descoberta aterrorizante

Na sexta-feira, 15 de abril de 1864, outro episódio mudaria completamente o rumo dessa história.

Januário Martins Ramos da Silva era proprietário de uma taberna, espécie de armazém bastante comum naquele período, localizada na antiga Rua da Igreja, atualmente Rua Duque de Caxias, nas proximidades da Rua Vigário José Inácio.

Naquela tarde, José Ramos foi até o estabelecimento e convidou Januário para acompanhá-lo até sua residência na Rua do Arvoredo.

O convite parecia algo normal entre conhecidos. Mas Januário não voltaria para casa.

Ele foi morto dentro da residência de Ramos.

Mais tarde, o menino José Ignácio de Souza Ávila, que trabalhava como caixeiro na taberna de Januário, também foi levado até o imóvel. Tinha apenas 12 anos, segundo a documentação utilizada pelo Correio do Povo, e acabou encontrando o mesmo destino de seu patrão.

O cachorro de Januário também foi morto naquela noite.

A sequência de acontecimentos teria passado despercebida por algumas horas, mas havia um detalhe que despertaria a atenção dos moradores: no dia seguinte, a taberna de Januário permaneceu fechada.

A ausência do comerciante começou a gerar comentários. Afinal, ele havia sido visto na companhia de José Ramos pouco antes de desaparecer.

A movimentação chamou a atenção das autoridades, que iniciaram as investigações.

A casa que escondia três mortos

Na segunda-feira, 18 de abril de 1864, policiais chegaram à residência da Rua do Arvoredo para investigar o desaparecimento de Januário e do menino José.

O que encontraram foi muito pior do que poderiam imaginar.

Durante as buscas, os investigadores localizaram, no porão, restos mortais humanos em avançado estado de decomposição, ainda envolvidos em roupas. A descoberta indicava que aquele corpo estava escondido havia bastante tempo.

As buscas continuaram pelo quintal.

Em um poço coberto por lixo e ramos verdes, foram encontrados outros dois corpos. Eram os restos de um homem adulto e de um menino, ambos mutilados, com partes dos corpos separadas.

Dentro do mesmo poço estava o cachorro de Januário.

Os corpos foram posteriormente reconhecidos como sendo de Januário Martins Ramos da Silva e José Ignácio de Souza Ávila. Já os restos encontrados no porão foram identificados como pertencentes a Carlos Claussner.

A casa de José Ramos guardava, portanto, os vestígios de três assassinatos.

A polícia também recolheu objetos que pertenciam às vítimas e dois machados. Os exames realizados na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre identificaram ferimentos provocados por instrumentos cortantes e contundentes, compatíveis com o uso de um machado.

A investigação começava a revelar uma sequência de crimes que havia permanecido escondida por meses.

E havia ainda outra pessoa dentro daquela história.

Senhorinha: a testemunha que ajudou a revelar o que aconteceu

Na residência também vivia uma mulher escravizada conhecida apenas como Senhorinha, de aproximadamente 54 anos.

Ela não pertencia a José Ramos nem a Catharina Palse. Era escravizada de uma vizinha e ocupava um quarto na casa do casal, ajudando nas atividades domésticas.

Seu depoimento se tornou importante para a investigação.

Senhorinha contou que havia visto Januário e o menino dentro da residência. Também relatou que Catharina fechou algumas portas da casa, impedindo que ela saísse de seus aposentos.

Outro detalhe chamou a atenção dos investigadores: a testemunha disse ter visto Catharina lavando a escada que dava acesso ao quintal e limpando objetos que apresentavam marcas de sangue.

Quando questionada posteriormente, Catharina confirmou que havia realizado a limpeza a pedido de José Ramos.

Os depoimentos começaram a formar um quadro cada vez mais comprometedor.

Catharina também apresentou informações sobre o que teria acontecido dentro da casa. Segundo seu relato, Januário foi morto durante a tarde. Mais tarde, José Ramos teria retornado acompanhado do menino, que acabou assassinado naquela mesma noite.

Ela afirmou ter visto os corpos e apontou José como responsável pelas mortes.

Ramos, por outro lado, negava as acusações.

Tentou apresentar versões diferentes sobre o desaparecimento de Claussner e procurou atribuir a Catharina parte da responsabilidade pelo que havia acontecido. Chegou a afirmar que não sabia como os corpos tinham aparecido no quintal.

Mas as contradições em seus depoimentos, os objetos das vítimas encontrados na residência e os relatos das testemunhas enfraqueciam cada vez mais sua versão.

Porto Alegre queria fazer justiça com as próprias mãos

A notícia da descoberta dos corpos rapidamente se espalhou pela cidade.

Naquele tempo, Porto Alegre tinha uma população muito menor do que a atual. Notícias de assassinatos tão violentos não demoravam a circular, especialmente quando envolviam pessoas conhecidas e uma residência no coração da capital.

A revolta foi enorme.

Quando José Ramos e Catharina foram levados para prestar esclarecimentos, uma multidão se reuniu diante da repartição policial.

Não era apenas curiosidade. As pessoas estavam furiosas e exigiam que os presos fossem entregues para que a própria população pudesse castigá-los.

O chefe de polícia da província, Dario Rafael Callado, registrou os acontecimentos em uma correspondência oficial enviada em 19 de abril de 1864 ao vice-presidente da província.

O documento descreve uma multidão superior a 200 pessoas, que gritava exigindo a entrega dos acusados.

A situação ficou tão perigosa que a polícia precisou solicitar reforços militares para transportar os presos até a cadeia.

Vinte soldados foram chamados inicialmente. Como a multidão continuava ameaçando a operação, outros 30 homens foram enviados.

Houve confrontos, pessoas ficaram feridas e pedras foram lançadas contra as forças policiais.

Somente por volta da meia-noite os presos conseguiram ser recolhidos à cadeia.

A cidade estava diante de um caso que ultrapassava os limites de um crime comum. A brutalidade dos assassinatos e a descoberta dos corpos haviam provocado uma reação popular difícil de controlar.

A história das linguiças que assombrou Porto Alegre

Mas existe um detalhe que fez os crimes da Rua do Arvoredo atravessarem gerações e se tornarem conhecidos muito além dos limites da capital.

A história de que carne humana teria sido transformada em linguiças e vendida à população.

A narrativa que se espalhou conta que José Ramos teria mantido uma parceria com Carlos Claussner, o açougueiro alemão, para assassinar pessoas e utilizar seus corpos como matéria-prima na fabricação de linguiças comercializadas em Porto Alegre.

Segundo essa versão, os produtos teriam sido vendidos normalmente, sem que os consumidores soubessem de sua verdadeira origem. Algumas versões ainda afirmam que a mercadoria chegava a pessoas de diferentes condições sociais, fazendo com que a própria população da cidade se tornasse, sem saber, parte de uma história de canibalismo.

Há também uma narrativa envolvendo Catharina Palse. Ela teria utilizado sua aparência e capacidade de sedução para atrair homens até a residência, onde seriam assassinados por José Ramos.

A combinação dos elementos era aterrorizante: uma mulher que atraía vítimas, um homem responsável pelos assassinatos, um açougueiro, um comércio de linguiças e uma cidade inteira que poderia ter consumido carne humana sem imaginar o que estava acontecendo.

Mas existe uma questão importante.

O que realmente aconteceu e o que foi acrescentado com o passar do tempo?

Os documentos judiciais conhecidos confirmam os três assassinatos, mas não comprovam a fabricação ou comercialização de linguiças com carne humana. Também não há registro documental de que Catharina seduzisse homens para conduzi-los até a casa.

Os exames dos corpos mutilados não identificaram retirada de carne para esse propósito. A história das linguiças não aparece nos depoimentos policiais nem nos processos judiciais preservados.

Isso não diminui a brutalidade dos crimes. Pelo contrário: a realidade já era suficientemente perturbadora.

O que se sabe é que José Ramos havia trabalhado por um curto período no açougue de Claussner e, depois de matar o comerciante, ficou com seus pertences e tentou assumir o estabelecimento. O negócio, porém, não prosperou.

A hipótese mais consistente apontada pela documentação é que os assassinatos estavam relacionados à apropriação de bens e estabelecimentos comerciais. Januário também teria sido morto para que Ramos pudesse se apoderar de sua taberna, enquanto o menino poderia representar uma testemunha inconveniente do desaparecimento do patrão.

A história das linguiças, portanto, permanece sem comprovação histórica. Mas foi justamente essa narrativa que acrescentou uma camada ainda mais sombria a um episódio que já havia deixado Porto Alegre em choque.

Os julgamentos e o destino dos acusados

Em agosto de 1864, José Ramos e Catharina Palse foram julgados pelas mortes de Januário e do menino José.

O resultado foi severo.

José Ramos foi condenado à morte. Catharina recebeu uma pena de 13 anos e quatro meses de prisão, com trabalho e multa, por seu envolvimento nos assassinatos.

Ramos, entretanto, solicitou um novo julgamento, possibilidade prevista na legislação da época para pessoas condenadas à pena capital.

O segundo julgamento aconteceu entre 30 de abril e 1º de maio de 1865. Novamente, ele foi considerado culpado e condenado à morte. O processo seguiu para o Tribunal da Relação, no Rio de Janeiro, responsável por julgar casos dessa natureza naquele período.

Pela morte de Carlos Claussner, José Ramos também recebeu uma condenação de 14 anos e um mês de prisão, com trabalho e multa.

O destino dos demais envolvidos também foi esclarecido. Carlos Rathmann, um alemão que havia ficado hospedado na casa do casal e chegou a ser preso durante as investigações, acabou absolvido. As autoridades confirmaram que ele estava hospedado em outro local na noite dos assassinatos de Januário e do menino.

Catharina Palse teve uma trajetória diferente da de seu companheiro. Registros jornalísticos indicam que ela foi colocada em liberdade em março de 1880, após cumprir mais de 15 anos de prisão. Em 1891, entretanto, uma publicação voltou a noticiar sua libertação, sem que se tenha esclarecido completamente o motivo de uma nova prisão nesse intervalo.

José Ramos nunca mais recuperou a liberdade.

Ele morreu na cadeia pública de Porto Alegre em 1º de agosto de 1893.

O homem que havia escondido corpos no porão e no quintal de sua residência terminou seus dias atrás das grades, quase três décadas depois dos crimes.

E a casa? Onde tudo aconteceu?

Talvez uma das maiores curiosidades dessa história seja justamente a dificuldade de identificar com absoluta certeza o imóvel onde os assassinatos aconteceram.

A antiga Rua do Arvoredo corresponde à atual Rua Coronel Fernando Machado, no Centro Histórico de Porto Alegre, na região próxima à Catedral Metropolitana e ao Palácio Piratini.

A casa ficava nos fundos da região do Palácio Piratini, mas não existe uma identificação consensual e documentalmente segura do número exato do imóvel.

Ao longo dos anos, diferentes versões e indicações foram associadas ao endereço. A ausência de uma localização definitivamente comprovada contribuiu para manter o mistério em torno do cenário dos crimes.

A rua, por sua vez, continuou fazendo parte da vida da cidade. As construções mudaram, os moradores se sucederam, novos estabelecimentos apareceram e o antigo nome praticamente desapareceu do cotidiano.

Mas a história não desapareceu junto com ele.

Uma história que Porto Alegre nunca conseguiu deixar para trás

Com o passar das décadas, os crimes da Rua do Arvoredo ganharam espaço em livros, pesquisas históricas, romances, produções culturais e passeios temáticos pelo Centro Histórico.

A partir principalmente da década de 1990, obras literárias ajudaram a popularizar ainda mais a versão envolvendo o consumo de linguiças feitas com carne humana.

Entre os trabalhos que abordam o episódio estão Os Crimes da Rua do Arvoredo, do pesquisador Décio Freitas, e Canibais: paixão e morte na Rua do Arvoredo, de David Coimbra.

Mais recentemente, o caso também ganhou novas interpretações na literatura e em produções dedicadas às histórias obscuras de Porto Alegre.

A antiga rua passou a ser procurada por curiosos, pesquisadores e pessoas interessadas no passado sombrio da capital. Até mesmo estabelecimentos temáticos surgiram explorando essa atmosfera misteriosa.

É curioso pensar que uma região tão próxima de alguns dos principais símbolos políticos e religiosos do Rio Grande do Sul tenha sido cenário de um episódio tão brutal.

E talvez seja justamente essa proximidade que torne tudo ainda mais perturbador: não estamos falando de um lugar distante, isolado ou perdido em alguma cidade desconhecida. Estamos falando de uma rua que faz parte do cotidiano de Porto Alegre.

Se as paredes daquela casa pudessem falar…

Imagine caminhar pela Rua Coronel Fernando Machado ao entardecer.

O movimento do Centro vai diminuindo, as luzes dos estabelecimentos começam a aparecer e as fachadas antigas ganham outra aparência sob a iluminação da rua.

Agora imagine voltar no tempo, para abril de 1864.

Naquela mesma região, uma casa escondia os restos mortais de três homens. Um quintal guardava um poço coberto por lixo e galhos. Uma mulher havia visto mais do que gostaria. Um homem tentava explicar desaparecimentos que já não podiam ser ignorados.

E, do lado de fora, mais de 200 pessoas exigiam justiça.

Não é preciso acrescentar fantasmas, aparições ou qualquer fenômeno sobrenatural para tornar essa história assustadora. Os registros históricos já oferecem motivos suficientes para arrepiar.

A história da Rua do Arvoredo é uma lembrança incômoda de que Porto Alegre também tem capítulos que preferiria não recordar. Entre o que foi comprovado nos tribunais e o que a imaginação popular acrescentou, permanece um dos episódios mais sombrios da memória da cidade.

Da próxima vez que tu passar pela Rua Coronel Fernando Machado, talvez olhe para aquelas construções antigas de um jeito um pouco diferente.

Afinal, algumas ruas guardam muito mais do que seus nomes e endereços conseguem contar.

E essa é uma história que Porto Alegre ainda não terminou de contar.