Tem coisas que a gente não precisa explicar muito para um gaúcho. Um churrasco de domingo, um chimarrão no fim da tarde, uma conversa que começa depois do almoço e vai até a noite… e, claro, aquele xis bem caprichado, com bastante queijo, maionese, alface, tomate e tudo aquilo que couber entre duas metades de pão.
Mas existe uma pergunta curiosa por trás de um dos lanches mais queridos do Rio Grande do Sul: como foi que um sanduíche inspirado no hambúrguer americano ganhou um jeito tão próprio de ser que acabou virando praticamente uma instituição gaúcha?
E tem outra questão ainda mais interessante: por que chamamos de xis? De onde veio esse nome? Quem teve a ideia de colocar milho, ervilha e tanta coisa dentro de um pão? E em que momento o lanche deixou de ser apenas mais uma opção de lancheria para se transformar em parte da identidade gastronômica do Estado?
A história não tem um único inventor conhecido, nem uma data oficial de nascimento. Mas existem registros, relatos de antigos comerciantes e pistas bastante interessantes para reconstruir essa trajetória.
E ela começa muito antes de alguém pedir um xis coração depois de uma festa.
Antes do xis, existia o cheeseburger
Para entender o nascimento do xis gaúcho, precisamos voltar um pouco no tempo e atravessar algumas fronteiras.
O hambúrguer, como conhecemos hoje, tem suas raízes na tradição de carne moída servida em pão, que ganhou força nos Estados Unidos no final do século XIX e início do século XX. Com o passar dos anos, o sanduíche recebeu queijo, molhos e diferentes acompanhamentos, dando origem ao famoso cheeseburger.
No Brasil, um dos marcos importantes dessa história aconteceu em 1952, quando o Bob’s abriu sua primeira loja em Copacabana, no Rio de Janeiro. A rede, fundada pelo norte-americano Robert Falkenburg, ajudou a apresentar o hambúrguer ao público brasileiro e popularizar esse tipo de alimentação rápida.
A novidade foi se espalhando pelo país e, como acontece com praticamente tudo que chega à mesa de uma região, cada lugar começou a adaptar a receita aos próprios hábitos.
No Rio Grande do Sul, essa adaptação acabou tomando proporções bastante particulares.
O que chegou como uma espécie de cheeseburger começou a ganhar um pão maior, mais recheio, diferentes tipos de carne, acompanhamentos que não eram tão comuns na versão americana e, principalmente, uma característica que se tornaria uma das marcas registradas do lanche: a prensa na chapa.
O resultado já não era exatamente um hambúrguer americano. Era outra coisa.
Era o xis.
Mas por que o nome é xis?
Essa é uma das curiosidades mais legais da história.
A explicação mais aceita relaciona a palavra xis ao inglês cheese, que significa queijo. A pronúncia de cheese foi sendo adaptada à fala brasileira, aproximando-se de algo como “tchiz”. A partir daí, a palavra e as formas de escrever o sanduíche foram se transformando, até chegar ao conhecido X-burger e ao nosso xis.
É importante entender uma coisa: não existe um documento histórico conhecido que identifique a primeira pessoa a usar essa denominação no Rio Grande do Sul.
O que temos são explicações linguísticas que ajudam a entender a transformação do nome. Inclusive, estudos sobre a formação de palavras relacionadas aos sanduíches mostram como o X deixou de ser apenas uma referência ao queijo e passou a funcionar como uma espécie de nome próprio para o lanche.
É por isso que hoje conseguimos falar em xis-bacon, xis-frango, xis-coração, xis-filé e xis-tudo. O X já não precisa explicar o queijo. Ele identifica o próprio sanduíche.
E existe uma diferença interessante: enquanto em muitos lugares do Brasil o X aparece apenas como uma letra na escrita de X-burguer, no Rio Grande do Sul a palavra ganhou vida própria. A gente escreve e fala xis.
Uma pequena adaptação linguística que acabou virando parte do vocabulário gaúcho.
Quando o xis começou a ganhar espaço no Rio Grande do Sul?
Aqui chegamos a uma parte em que a história fica ainda mais interessante, justamente porque não existe um inventor oficialmente reconhecido.
Não há consenso sobre qual foi a primeira lancheria a preparar um xis no Estado, tampouco sobre qual cidade serviu o primeiro exemplar. O que os registros jornalísticos permitem afirmar é que o lanche já estava se espalhando pelas lancherias gaúchas durante a década de 1970.
A transformação aconteceu aos poucos. Pequenos estabelecimentos, trailers e casas de lanches passaram a oferecer versões próprias, adaptando ingredientes e formas de preparo ao gosto dos clientes.
E isso combina bastante com a cultura das lancherias daquela época.
Elas eram pontos de encontro, lugares onde estudantes saíam depois da aula, trabalhadores faziam uma refeição rápida e grupos de amigos encerravam a noite. O lanche precisava ser saboroso, relativamente rápido de preparar e capaz de matar a fome de verdade.
O xis atendia a tudo isso.
Uma reportagem do Destemperados, publicada em 2021, recuperou relatos de proprietários de tradicionais lancherias de Porto Alegre e destacou justamente a década de 1970 como período em que o sanduíche se popularizou pelo Rio Grande do Sul.
Não foi uma invenção que aconteceu necessariamente em uma cozinha famosa, com alguém anunciando que havia criado um novo prato. Foi uma construção que passou pelas mãos de diferentes comerciantes, cozinheiros, padeiros e clientes.
E talvez seja justamente por isso que seja tão difícil apontar um único criador.
O xis também tem história na Serra Gaúcha
Quando falamos sobre a história do xis, Porto Alegre costuma aparecer com bastante destaque, mas a Serra Gaúcha também guarda registros importantes dessa cultura.
Um exemplo muito interessante está em Caxias do Sul.
No dia 8 de fevereiro de 1975, um casal começou a trabalhar com lanches em um trailer instalado junto a um posto Texaco, na esquina das ruas Garibaldi e Tronca. O estabelecimento recebeu o nome de Texakão.
O casal era formado por Amélio e Lourena Pola Fiorio. Ela tinha apenas 18 anos quando começou a trabalhar no negócio e precisou aprender a preparar os lanches que sustentariam a família.
Mas o detalhe mais curioso dessa história está no apelido que acabou dando nome a uma das lancherias mais tradicionais da cidade.
Amélio era chamado de gringo pelos conhecidos. Por causa disso, Lourena também passou a ser chamada de Gringa. O apelido pegou, e o negócio ficou conhecido como Xis da Gringa.
A história foi contada pela própria Lourena em reportagem do jornal Pioneiro, publicada em 2020, quando o estabelecimento completou 45 anos.
O trailer foi o começo de uma trajetória que passou por outros endereços até chegar à Rua Carlos Bianchini, onde a lancheria se consolidou.
Essa história é interessante porque mostra que, enquanto o xis ganhava espaço no Estado, pequenos empreendedores construíam suas próprias tradições. Não existia uma grande rede determinando como o lanche deveria ser feito. Cada casa desenvolvia sua identidade.
E o público acabava criando vínculos com aquela receita específica.
E Porto Alegre, como entrou nessa história?
Se existe uma cidade que ajudou a transformar o xis em parte da rotina dos gaúchos, essa cidade é Porto Alegre.
A Capital desenvolveu uma relação muito particular com as lancherias. Em diferentes bairros, esses estabelecimentos passaram a funcionar como pontos de encontro, principalmente durante a noite e na madrugada.
E não estamos falando apenas de lugares para comer. Muitas lancherias acabaram se tornando parte das lembranças de diferentes gerações.
Quem nunca teve aquele lugar onde costumava parar depois de uma festa? Aquele estabelecimento em que o atendente já sabia o pedido de sempre? Ou aquela lancheria que virou referência entre os amigos?
A Lancheria do Parque, no Bom Fim, é um dos exemplos mais conhecidos dessa relação. Inaugurada em 1982, consolidou-se como um dos endereços tradicionais da Capital. Sua localização, em frente ao Parque Farroupilha, ajudou a aproximá-la de estudantes, frequentadores do parque e da juventude que circulava pela região.
Segundo Neomar José Turatti, proprietário da casa, o xis entrou no cardápio justamente por oferecer uma preparação mais rápida do que outros pratos.
E tem outro detalhe: o Xis Coração se tornou um dos grandes sucessos da casa, mostrando como os ingredientes ligados aos hábitos alimentares gaúchos encontraram espaço dentro do sanduíche.
O coração de galinha, aliás, é um ótimo exemplo de como o xis se afastou da receita tradicional americana.
Enquanto o cheeseburger costuma ter como protagonista o hambúrguer de carne bovina, no Rio Grande do Sul o cliente passou a encontrar opções com coração, frango, filé, calabresa, bacon e diversas outras combinações.
O xis ganhou uma liberdade que talvez seja uma das explicações para sua popularidade.
Não demorou para que cada lancheria tivesse seus próprios sabores, suas próprias combinações e, principalmente, aquele ingrediente ou preparo que fazia o cliente voltar.
O que faz um xis ser diferente de um hambúrguer comum?
Para quem nunca experimentou, pode parecer apenas um hambúrguer maior. Mas quem conhece sabe que a diferença vai muito além do tamanho.
O xis tradicional gaúcho costuma começar com um pão redondo, geralmente maior do que o utilizado em hambúrgueres convencionais.
No recheio, encontramos uma combinação bastante característica:
Carne, que pode ser hambúrguer, filé, frango ou coração.
Queijo derretido.
Alface e tomate.
Milho e ervilha.
Ovo, presunto e outros complementos, dependendo da receita.
Maionese, ketchup, mostarda e outros molhos.
E então vem uma das etapas mais importantes: a prensa.
O sanduíche montado vai para a chapa, onde é pressionado até ficar mais compacto, quente e com o queijo derretido envolvendo parte dos ingredientes.
É essa preparação que ajuda a criar aquela textura característica, com o pão tostado por fora e o recheio quentinho por dentro.
Mas existe uma discussão que pode render uma boa conversa entre gaúchos: afinal, o que não pode faltar em um xis para ele ser considerado um xis de verdade?
Tem quem defenda milho e ervilha como ingredientes indispensáveis. Outros não abrem mão da salada. Há quem considere a maionese o verdadeiro segredo e quem diga que, sem ser prensado, o lanche perde sua identidade.
E sempre aparece alguém para defender que o xis precisa ser grande o suficiente para exigir as duas mãos e uma quantidade considerável de guardanapos.
Talvez não exista uma receita universal. O que existe é uma combinação de características que tornou o lanche reconhecível e muito diferente de outras versões de sanduíches.
Milho e ervilha: como foram parar dentro do xis?
Essa é uma daquelas curiosidades que merecem atenção.
O milho e a ervilha são ingredientes bastante associados ao xis gaúcho, mas não existe um registro histórico confiável que identifique quem teve a ideia de adicioná-los pela primeira vez.
Uma possibilidade é que tenham entrado na composição à medida que as lancherias foram adaptando o sanduíche ao paladar local e buscando oferecer uma refeição mais completa.
O fato é que esses ingredientes acabaram se tornando tão característicos que, para muita gente de fora do Estado, são justamente eles que mais chamam a atenção.
Afinal, não é em qualquer lugar que alguém pede um cheeseburger e recebe um pão generosamente recheado com carne, queijo, salada, milho, ervilha, ovo e maionese, tudo prensado na chapa.
O xis não ficou maior apenas em tamanho. Ele também ganhou uma combinação de sabores própria.
E isso ajuda a entender por que reproduzir um xis gaúcho fora do Rio Grande do Sul nem sempre é tão simples. Não basta colocar um hambúrguer dentro de um pão e chamar de xis. Existe uma expectativa em relação ao conjunto.
A influência da cultura gaúcha no recheio
O Rio Grande do Sul tem uma relação histórica com o consumo de carne. O churrasco, as carnes assadas e os diferentes preparos com cortes bovinos fazem parte da cultura alimentar do Estado.
E essa preferência também aparece no xis.
A professora de gastronomia Letícia Pereira da Silva, em um material publicado no Almanaque de Caxias, comenta justamente como o hábito gaúcho de consumir carne contribuiu para a identidade específica que o sanduíche ganhou por aqui.
A lógica é interessante: o xis recebeu uma influência estrangeira, mas não permaneceu preso à receita que o inspirou. Foi incorporando ingredientes e sabores que faziam sentido para quem o preparava e consumia no Sul.
É por isso que o coração de galinha encontrou tanto espaço.
O mesmo aconteceu com o filé, o lombo, a calabresa e outras proteínas. O recheio deixou de ser apenas um hambúrguer acompanhado de queijo e passou a ser uma espécie de vitrine da criatividade de cada lancheria.
O xis virou um sanduíche em que a carne escolhida pode mudar completamente a experiência.
Canoas também tem um capítulo importante nessa história
Quando o assunto é xis no Rio Grande do Sul, Canoas merece uma menção especial.
A cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre construiu uma relação tão forte com o sanduíche que chegou a reconhecer oficialmente essa tradição.
Em 2016, foi aprovada a Lei Municipal nº 5.990, que reconhece Canoas como referência do Xis/X-Burguer Gaúcho e estabelece o dia 28 de maio como o Dia do Xis.
É uma demonstração de como o lanche ultrapassou a condição de simples produto comercial e passou a ser associado à identidade gastronômica de uma cidade.
E isso é particularmente interessante porque o xis não pertence exclusivamente a uma única cidade.
Porto Alegre tem suas lancherias históricas, Caxias do Sul possui estabelecimentos tradicionais, Canoas construiu sua própria relação com o lanche e diversas outras cidades gaúchas desenvolveram versões que fazem parte da rotina de seus moradores.
O xis é uma tradição compartilhada.
Quando o xis ficou gigante?
Se o xis tradicional já costuma ser generoso, alguém resolveu levar essa característica a outro nível.
E assim surgiram versões gigantes, também conhecidas como xis família, calota, lombada ou roda de carreta.
Uma reportagem publicada pela GZH em junho de 2019 investigou a história de três estabelecimentos conhecidos por esse tipo de lanche em Porto Alegre: Coqueiro, Gelson e Xis Calota.
A história da Lancheria Coqueiro começa em dezembro de 1977, quando o estabelecimento funcionava em um trailer ao lado de um coqueiro, na Rua Landel de Moura, na Zona Sul.
Por volta de 1979, uma mudança aparentemente simples acabou dando origem ao seu famoso xis gigante.
O estabelecimento recebeu um pão maior do que o habitual. Os proprietários gostaram da novidade e passaram a utilizá-lo. O padeiro precisou até desenvolver uma forma específica para produzir os pães daquele tamanho.
O resultado foi um xis quadrado de aproximadamente 27 centímetros por 27 centímetros, capaz de alimentar várias pessoas.
Já a história do Gelson Lanches é um pouco diferente. Segundo o relato de um dos proprietários à reportagem, o xis família teria sido desenvolvido na década de 1990, em meio à inflação elevada daquele período.
A ideia era oferecer um lanche que alimentasse quatro pessoas sem que fosse necessário comprar quatro xis individuais.
E o Xis Calota trouxe outra proposta: um sanduíche redondo, inspirado justamente no formato de uma calota de Fusca. A criação começou a ser comercializada em 2011, e a marca foi registrada em 2012.
Alguns desses lanches ultrapassam os dois quilos. É praticamente uma refeição coletiva disfarçada de sanduíche.
Do tradicional ao inusitado: o xis não conhece limites
Uma das características mais interessantes do xis é a capacidade de se reinventar.
Com o passar dos anos, as lancherias começaram a criar combinações que iam muito além da receita tradicional.
Surgiram versões com estrogonofe, camarão, picanha, costela, frango desfiado, quatro queijos e até ingredientes que normalmente não seriam associados a um sanduíche.
Em Porto Alegre, por exemplo, o Julio Paris ficou conhecido por uma criação bastante particular: o xis envelopado em queijo.
Em reportagem do Destemperados, publicada em 2021, Julio contou que a ideia surgiu nos anos 2000, quando preparava um lanche para si mesmo e um cliente percebeu que o pão estava coberto de queijo. Gostou da aparência e pediu um igual.
Uma simples observação de cliente acabou virando uma das marcas da lancheria.
E tem mais: já foram apresentados xis de lasanha, chocolate e outras combinações bastante improváveis. O Bagatela Lanches, por exemplo, apareceu entre os estabelecimentos associados a versões doces do sanduíche.
É uma demonstração de que o xis não precisa necessariamente seguir uma receita rígida.
O xis também virou saudade para quem saiu do Rio Grande do Sul
Existe um detalhe que mostra o tamanho da importância cultural desse lanche: a saudade.
Para quem nasceu ou viveu no Rio Grande do Sul e depois se mudou para outro Estado, encontrar um xis preparado do jeito gaúcho pode ser uma missão complicada.
E não é apenas questão de encontrar um sanduíche grande.
O pão, a prensa, a combinação dos ingredientes e até a maionese fazem diferença. Muitas vezes, o que o gaúcho procura é justamente aquela experiência que tinha quando frequentava a lancheria do bairro.
Essa relação chegou a inspirar negócios fora do Estado.
Em 2014, a GZH contou a história de Cristian Ramos, empresário natural de Sapucaia do Sul que levou o xis gaúcho para Brasília.
Morando longe do Rio Grande do Sul, ele percebeu uma oportunidade de negócio justamente na saudade que outros gaúchos sentiam do lanche.
O empreendimento cresceu e chegou a funcionar como uma rede de franquias.
A reportagem também relatou a experiência de consumidores que tentavam reproduzir o xis em casa, mas não conseguiam chegar ao resultado esperado.
Isso diz bastante sobre o lugar que o xis ocupa na memória de quem cresceu comendo esse sanduíche.
Não é só sobre matar a fome. É sobre encontrar um sabor que lembra uma cidade, uma época, uma amizade ou uma noite que terminou na lancheria.
Afinal, quem inventou o xis gaúcho?
Depois de toda essa história, chegamos à pergunta que provavelmente despertou tua curiosidade desde o começo.
A resposta mais honesta é: não sabemos quem inventou o primeiro xis do Rio Grande do Sul.
Não existe um nome oficialmente reconhecido, uma lancheria comprovadamente responsável pela criação original ou um registro que permita estabelecer com segurança o local e a data exatos.
O que sabemos é que o sanduíche tem relação com a tradição do cheeseburger, ganhou popularidade no Estado durante a década de 1970 e foi sendo transformado pelas lancherias gaúchas.
Os registros de estabelecimentos como o Xis da Gringa, em Caxias do Sul, mostram que essa cultura já estava bastante presente em 1975. A trajetória da Lancheria Coqueiro, em Porto Alegre, também ajuda a documentar a expansão e as transformações do lanche a partir do final daquela década.
Portanto, atribuir a invenção a uma pessoa ou cidade específica seria contar uma história que as fontes disponíveis não conseguem comprovar.
E talvez exista algo interessante nisso.
Diferentemente de uma receita criada por um chef famoso ou de um prato associado a um restaurante específico, o xis parece ter sido construído coletivamente. Cada lancheria acrescentou um pouco de sua própria identidade, cada cliente ajudou a popularizar uma combinação e cada cidade desenvolveu suas referências.
O resultado foi um sanduíche que ganhou personalidade própria.
O xis é muito mais do que um lanche
Hoje, pedir um xis no Rio Grande do Sul é quase um ritual.
Tem quem prefira o de coração, quem não abra mão do filé, quem escolha o tradicional salada e quem sempre procure a opção mais recheada do cardápio.
Tem gente que coloca milho e ervilha em tudo, gente que pede sem tomate, gente que exige maionese caseira e gente que considera qualquer xis incompleto se não vier acompanhado de uma porção de batatas fritas.
E existem discussões que provavelmente nunca terão fim: qual cidade faz o melhor xis? Qual lancheria tem a melhor maionese? O pão precisa ser mais crocante ou mais macio? O xis deve ser prensado até ficar bem compacto ou apenas o suficiente para derreter o queijo?
São discussões sérias, pelo menos na mesa de uma lancheria.
O mais curioso é pensar que um sanduíche inspirado em uma preparação estrangeira acabou ganhando uma identidade tão própria que hoje é reconhecido como um dos grandes símbolos da gastronomia popular gaúcha.
Ele atravessou gerações, acompanhou mudanças nas cidades, sobreviveu à chegada de redes de fast-food, ganhou versões gigantes, sabores inusitados e até empreendedores dispostos a levá-lo para outros cantos do Brasil.
E continua ali, firme no cardápio das lancherias, fazendo parte da rotina de quem mora no Estado.
Talvez seja por isso que explicar o xis para alguém de fora seja tão difícil. A pessoa pode até entender os ingredientes, visualizar o tamanho e compreender como funciona a prensa.
Mas existe uma parte da experiência que só quem já saiu de uma festa de madrugada procurando uma lancheria aberta consegue entender.
Porque, no fim das contas, o xis não é apenas um sanduíche que a gente pede quando está com fome.
É um pedacinho da cultura gaúcha servido entre duas metades de pão. E, se vier com bastante maionese, melhor ainda. 💚

